12 dezembro 2013

Capítulo 32

Mayra Borges


Exatas nove horas e doze minutos, ouvi batidas na porta. Procurei respirar fundo, mas o gesto foi inútil, pois naquele momento todo o oxigênio do planeta parecia insuficiente para meus pulmões. Caminhei até a porta em pânico e em um primeiro momento hesitei em abri-la, tentei respirar fundo novamente e desta vez quase cheguei perto, mas ou o ar estava rarefeito demais ou eu simplesmente havia desaprendido a fazer aquilo. Fiquei parada em frente à porta por alguns segundos até ouvir mais algumas batidas. Levei a mão à chave e abri de uma vez.

- Oi?
- Você é a Miriam, certo?

Uma mulher com olhos extremamente grandes e cara redonda cheia de sardas olhava para mim através das lentes manchadas e grossas dos óculos.  Era a recepcionista ou algo assim. Sorri um pouco demais ao perguntar, tentando disfarçar minha cara de decepção e de alívio ao mesmo tempo:

- Ahh, sim, sou eu sim, algum problema?

 Ela me olhou um pouco e respondeu:

- Não, é só que tem um rapaz lá embaixo a sua procura, Vi... Vic...
- Vincent._completei e senti meu coração acelerar novamente.
- Isso._ela sorriu meio sem jeito._Posso deixá-lo subir?

Ainda estava me recuperando da sensação de um pré-enfarto e prestes e ter um novo, tentando segurar o riso e a vontade de sair correndo o que me fez demorar alguns segundos para responder com um ar meio atrapalhado:

- Claro, você... pode, pode sim.
- Está tudo bem?_perguntou a mulher me olhando de uma forma curiosa.

Fiz que sim com a cabeça e a recepcionista olhou para mim mais uma vez antes de dar as costas e descer as escadas no final do corredor, quando tive certeza de que ela não poderia mais me ouvir comecei a rir e momentos depois, fui surpreendida por uma pergunta:

            - O que é tão engraçado?

Olhei para frente um tanto surpresa e dei de cara com Vincent que me fitava com um meio sorriso nos lábios e um ar de curiosidade no rosto. Por alguns segundos perdi a capacidade de raciocínio, fiquei parada olhando para ele sem saber o que dizer, até que por fim respondi:

            - Não foi nada.
            - Depois vou querer saber o que foi isso.
            - Se eu te contar que é puro nervosismo talvez vá pegar mal, não acha?
            - Não, é perfeitamente razoável, eu causo esse efeito nas pessoas.
            - Ahh meu Deus, você é mesmo um convencido!_revirei os olhos e soprei uma mecha do cabelo pra longe dos meus olhos.

Ele me observou e respondeu.

            - Ahh meu Deus, você é mesmo linda e despretensiosamente sexy.


Acho que enrubesci, mas não tenho certeza, porque depois de dizer isso ele sorriu largamente, deu alguns passos na minha direção e me puxou devagar para um primeiro abraço. Não poderia descrever aquele momento nem se passasse o resto da minha vida buscando palavras boas o suficiente. Envolveu-me em seus braços de uma maneira aconchegante, pude sentir seu perfume amadeirado se misturando à minha pele, uma das mãos afagando ligeiramente o meu cabelo e o som abafado das nossas risadas. Naquele momento eu pude entender que nem eu mesma sabia o quanto havia esperado por aquele encontro, por aquele abraço e pelo que quer que fosse acontecer depois dele... Se me perguntassem não saberia dizer se naquele momento o mundo parou ou se começou a girar mais rápido. 


Continua...


04 dezembro 2013

Capítulo 31



Fui até a esteira e de posse da minha mala meio vazia saí à procura de um táxi, não demorou muito e lá estava eu seguindo rumo ao hostel e pensando no que aconteceria em seguida, como seria vê-lo e o que diríamos afinal... obviamente não encontrei nenhuma resposta conclusiva para tais questões, que tinham como principal função elevar a minha ansiedade a níveis cada vez mais críticos.

No trajeto de quase duas horas até o hostel pensei em mandar um sms avisando que havia chegado, mas preferi fazer isso depois de estar devidamente instalada e descansar um pouco.  

Depois de tomar um banho, comer duas barras de cereais e tirar um cochilo de aproximadamente uma hora, achei por bem dar notícias. Peguei o celular e para minha surpresa havia uma mensagem do Vinc, perguntando se tinha chegado bem, respondi que sim e em seguida ouvi o telefone tocar, era ele...

- Oi.
- E ai, foi tudo bem durante a viagem?
- Tudo ótimo, cheguei faz quase umas 4 horas, estava cansada e acabei apagando.
- Ok.

Ficamos em silêncio por alguns instantes, pude ouvi-lo respirar do outro lado algumas vezes.

            - Te vejo a noite?_ele perguntou por fim.
            - Ahh, claro.
            - Eu passo ai pra te buscar, combinado?
            - Sim, que horas Vinc?
            - As 9, ta bom pra você?

Olhei para o relógio, suprimi um suspiro e respondi:

            - Está ótimo.

Pude escutá-lo sorrindo.
           
            - O que foi?_ perguntei.
            - Nada, bem, na verdade eu não consigo acreditar que você esteja realmente aqui.
            - Pois acredite.
            - Miriam?
            - Oi...
            - Estou feliz que tenha vindo.
            - Vinc?
            - Oi...
         - Eu também estou. Esta sendo algo incrível, mas acho melhor a gente deixar essa conversa pra depois, não quero correr o risco de ficar sem ter o que conversar com você._ sorri.
            - Fica tranquila, não vai nos faltar assunto e nem alternativas para a falta dele, como você quiser.

Mordi o lábio e limitei-me a responder:

            - Ótimo.
            - Eu tenho que desligar, mas a gente se vê mais tarde não esqueça._ ele sorriu.
       - Ainda bem que você me lembrou, me deixa anotar, minha memória não anda lá muito boa ultimamente._ brinquei e mais uma vez ele sorriu do outro lado.

Joguei o celular sobre a cama de solteiro, olhei em volta, não tinha muitas opções de diversão até a hora do encontro. O quarto era simples e eu me atreveria a dizer que de certa forma parecia aconchegante. Caminhei até a janela, fora alguns prédios cinzentos em contraste com um céu extremamente limpo e azul tudo o que eu podia ver eram carros e pessoas passando apressados pelas ruas. Um vento quente entrava pela janela e uma fina camada de suor se formava na minha testa, fiquei na janela por mais alguns minutos, imaginando histórias e destinos para as pessoas e os carros que passavam, me distraindo da minha própria história e destino e evitando pensar demais.

            A tarde correu quente e lentamente, como se alguém estivesse brincando de segurar as horas. O tempo sempre tão apressado resolveu mudar justamente naquela bendita tarde de sexta feira.  Andei de um lado pro outro do quarto, ensaiei inutilmente ótimas conversas na frente do espelho, espalhei as roupas que havia trazido, tentando me decidir sobre qual usar, calça ou vestido? Que tal esse short? E essa blusa? Depois de muitas poses em frente ao espelho manchado do quarto, acabei me decidindo por algo simples, afinal não adiantava querer aparecer com um vestido lindo e maquiagem impecável e não me sentir a vontade em cima de um salto alto, no final das contas tudo o que importava era ser simples, ou seja, ser eu mesma, mesmo que isso fosse quase um risco.

            Olhei para o relógio pela milionésima vez e finalmente, 8:00. Entrei no cubículo que eles chamavam de banheiro e tomei um bom banho ao menos a água estava uma delícia. Saí do banho enrolada na toalha e senti um arrepio percorrer todo meu corpo junto com um sorriso nervoso, mais uma vez a mistura de medo e desejo. Joguei a toalha molhada em cima de uma cadeira e vesti-me. Uma regata, um short jeans e meus tênis da sorte, talvez estivesse um pouco despojado demais, mas era muito tarde pra tentar encontrar outra coisa. Coloquei os brincos e alguns acessórios. Soltei os cabelos que ondularam às minhas costas, fiz uma sombra leve, apenas para ressaltar meus olhos e, claro, o batom vermelho, algo em mim dizia que ele esperava por isso. Um pouco de hidratante e um leve perfume, dei uma olhada em mim mesma no espelho, estava aceitável, sorri nervosamente e olhei o relógio, 8:50.

            Exatas nove horas e doze minutos, ouvi batidas na porta. Era ele...

CONTINUA...

08 novembro 2013

Capítulo 30

ESCRITO POR: MAYRA BORGES


O que aconteceu na semana seguinte após essa conversa pode ser facilmente resumido em ansiedade, euforia e muitas xícaras de café. Misturei sentimentos como quem prepara uma bebida forte e tomei tudo de uma vez, embaralhando-os ao ponto de não conseguir descrevê-los e tendo a sensação de que se o fizesse estaria apenas compondo a história com uma parte disforme e sem sentido.

Tudo realmente entrou em foco quando coloquei os pés no aeroporto e por fim pensei pela milionésima vez na loucura que estava prestes a fazer. Fiz o Chek-in e me sentei em uma daquelas cadeiras desconfortáveis esperando o momento do embarque. Meu estômago arriscou sair pela boa umas três vezes e pensei que em algum momento iria acabar precisando de um cardiologista, mas ao final lá estava eu sentada na poltrona do avião, ouvindo as instruções da aeromoça e observando a cidade ficar pequena sob os meus pés.

Poderia me perder em inúmeras divagações com toda a metáfora que se apresentava através da janela daquele avião, o mundo era pequeno e eu era infinitamente menor que o mundo... É exatamente assim, não é mesmo? A gente tenta fugir o quanto pode dos nossos pensamentos, com receio do que eles possam plantar de incerto dentro das nossas certezas, era o que eu estava tentando fazer, me apegando a filosofias não condizentes com o momento simplesmente pelo medo de cair num mar de dúvidas, mas não consegui correr muito, logo senti a água fria dos questionamentos e receios óbvios lambendo minhas pernas e como era de se esperar eu estava de calças curtas. O mundo era pequeno e eu era infinitamente menor que o mundo, de certo ele me devoraria.

Respirei fundo e mentalmente fui vendo cada uma das minhas frágeis certezas travar uma batalha injusta contra as numerosas dúvidas e os gigantescos medos que me assolavam. No que julguei ser o final daquela luta desigual, havia algo de pé, uma certeza que escapara ilesa, um sinal pelo qual valeria continuar. Eu conhecia um Vincent, mas não sabia se aquele era o verdadeiro, mas mesmo diante disso havia em mim um sentimento imprudente de autoconhecimento, loucura, paixão e então pensei e sorri no meio a meio daquela certeza “Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?” Quando o avião enfim pousou e eu pus meus pés em terra era eu quem estava firme e definitivamente decidida sem a menor possibilidade de me arrepender pelo que quer que fosse. 


11 outubro 2013

Capítulo 29


ESCRITO POR: MAYRA BORGES


Poucos minutos depois ouvi o bip, li a mensagem “Ok, ótimo. Online agora?” Coloquei o livro sobre o centro e respondi “Claro”, fui para o quarto e liguei o computador, queria não querer, mas já não havia mais tempo para recusas, desculpas e desfeitas, mais uma vez era tempo de ir e assumir desse no que desse. Mal conectei e a janela piscou na tela:
- Oi.
- Olá.
- Queria pedir desculpas por hoje mais cedo.
- Pelo que exatamente?
- Pelas brincadeiras e tudo mais.
- Sem problemas.
- Ok. Mais uma coisa...
- O quê?
- Se eu entendi bem, você está vindo me ver?
- Exatamente isso.
- Pensei que estivesse brincando...
- Estava falando sério, só não gostei muito do jeito como tentou ignorar...
- Foi mal, queria te fazer sorrir um pouquinho, mas fui infeliz.
- Sua tentativa foi mais bem sucedida agora.
- Está mesmo melhor?
- A cabeça está abusando um pouco, mas nada demais.
- Quando você vem?
- Daqui uma semana, sabe eu tentei te avisar antes, mas você sumiu e fiquei um pouco incerta sobre te ligar ou deixar mensagem.
- Nossa, está muito em cima...
- Algum problema?
- O que você acha?
- Eu não sei, me diga.
- Claro que não tem problema nenhum, a senhorita será muito bem recebida. Depois vou querer saber todos os detalhes, o horário, tudo, ok?
- Claro, posso te passar tudo agora se quiser.
- Eu quero.
- Viajo na sexta pela manhã, se tudo correr como esperado chego por ai pouco antes da hora do almoço, umas 11, 11:30. Fico ai até a segunda a tarde, apenas um fim de semana. Consegui um pacote num hostel e quanto a isso já está tudo acertado. Eu confirmo o endereço depois e te mando, ok?
- Ok. Tudo certo então, mas acredito que não vou poder te esperar no aeroporto.
- Sem problemas eu já esperava por isso.
- Decidida você, sinceramente não esperava que fosse tomar essa decisão...
- Não quer que eu vá?
- Não foi isso que eu quis dizer.
- Eu sei o nível da minha loucura, se é isso que quer me falar._sorri.
- Espero que não se arrependa.
- Sinceramente?
- O quê?
- Eu também espero a mesma coisa.
- Não imaginei diferente.
- Me diz uma coisa.
- O que?
- Como esta o clima por ai, frio, calor?
- Sempre uma mistura dos dois, mas não precisa se preocupar com o frio, se é que me entende.
- Ok, entendi.
Maluquice, insensatez, estava em queda livre, sem pára-quedas, a cada segundo transcorrido via o chão se aproximando de mim sem que eu pudesse fazer nada para evitar a colisão desastrosa, então tudo que me restava era esperar que a queda durasse mais, rezar por um pouco mais de tempo, esse seria o único milagre ao qual eu teria direito. E mesmo em face duma queda terrível dentro de mim algo dizia: Você precisa. E eu num sussurro pra tentar me convencer, afirmei: É, preciso.
            - Vinc, tenho que ir agora.
            - Mas já, você mal chegou. Pensei que estivesse com saudades, queria te ver...
            - Eu sei, estou com saudades, mas não tenho dormido bem ultimamente e estou me sentindo cansada, não quero adoecer, se é que me entende.
            - Ok, entendo sim. Vá descansar senhorita, e me mande o endereço por mensagem, vou querer saber do ser esconderijo provisório.
            - Certo, te mando sim. Até mais.
            - Até, beijos e melhoras.
            - Obrigada.



21 setembro 2013

Capítulo 28

ESCRITO POR: MAYRA BORGES


- Filho da mãe!_disse em voz alta, mas a indignação logo abriu espaço para uma gargalhada mais sincera do que esperava. Quem eu estava tentando enganar? Tentar enganar-se é o trabalho mais estúpido ao qual alguém pode se dispor, estava sem energia alguma pra mentir pra mim mesma, não ia ignorar aquela pequena alegria que se instalara no meu peito ao ouvir aquela voz, iria tomá-la até a última gota.
            Abri a janela e aspirei um pouco do ar poluído e seco, minha cabeça doía. Caminhei pelo quarto e então olhei para o calendário “Apenas uma semana” pensei, soltei um suspiro, afastei os pensamentos coerentes da cabeça e resolvi que deveria começar a fazer as malas. Seriam apenas três dias. Puxei a mala de baixo da cama e tirei o pó, abri o guarda roupa e coloquei algumas roupas para o dia e outras para a noite, a mala ficou meio vazia, mas estava perfeito, aos poucos acrescentaria o que fosse lembrando, a verdade é que eu não queria dar muita importância a como deveria me comportar e o que vestir, algo em mim dizia que tudo aquilo poderia ser um grande engano, que poderia sair tudo errado. Dei de ombros empurrei a mala para um canto e me joguei na cama, acabei adormecendo novamente.
            Acordei por volta das 16:00 com a luz alaranjada do fim de tarde e o estômago que exigia algo que pudesse digerir. A cabeça continuava latejando, levantei devagar quase tonta, tomei um banho e fui até a cozinha, tinha pão e um resto de suco de caixinha, comi sem muita convicção, voltei para o quarto peguei um livro qualquer na prateleira, uma coletânea de contos do Edigar Allan Poe, li algumas páginas, mas a minha cabeça não estava ajudando. Olhei para o celular, voltei para o livro e novamente para o celular, fiquei nesse impasse por alguns segundos até deixar o livro de lado e segurar o celular. Digitei “Acordei, estou melhor” ponderei sobre enviar ou voltar para o livro, enviar ou voltar para o livro, larguei o celular num canto e realmente tentei me concentrar na leitura, mas alguns minutos depois lá estava eu, enviar! Depois de enviar o sms voltei para o sofá com o livro nas mãos e o telefone no colo. Se estivesse com sorte ele responderia.
CONTINUA... 

08 setembro 2013

Cápitulo 27

ESCRITO POR: MAYRA BORGES

Acordei com a chamada do celular e demorei alguns segundos pra perceber que não era o despertador. Levantei rápido e minha cabeça girou e tudo ficou escuro por alguns segundos, caí sentada na cama até conseguir atender:
         - Alô!_ atendi com a voz de sono.
         - Miriam?
         - Sim, quem é?
Escutei um riso seco do outro lado da linha.
         - Desculpe ter te tirado da cama.
         - Quem é?_ insisti.
         - Vincent, não está mais reconhecendo a minha voz?
         - Ahh você, também, quanto tempo não é mesmo?_ Meu coração se animou no peito, um sorriso idiota se instalou nos meus lábios e lá estava eu mais uma vez, cedendo e ignorando que aquela dor de cabeça era quase culpa dele. “Seja indiferente, seja indiferente” minha mente gritava.
         - Muito trabalho...
         - Faculdade e afins, não precisa se desculpar eu já entendi_ completei a frase, mal humorada e ele simplesmente fingiu que eu não o havia interrompido, continuou como se o assunto sequer tivesse sido mencionado.
         - Tudo bem com você?_ perguntou com aquele sotaque sutil por trás das palavras.
         - Tá, tudo bem, pensei que você nunca mais fosse dar as caras._ sorri numa tentativa de parecer indiferente, mas definitivamente não estava sendo bem sucedida.
         - Mas estou aqui, alguma novidade, está tudo bem mesmo?
         - Está tudo legal sim._”Como se você se importasse” completei a frase mentalmente e dei de ombros.
         - Alguma novidade?
Pensei em contar tudo o que havia acontecido, do término do meu namoro, do encontrão com o moço na rua que havia resultado em passagens impulsivamente compradas, e da dívida do meu cartão de crédito, mas me decidi por omitir.
         - Não nenhuma.
         - Hum, ok. Então, eu só liguei pra avisar que estou vivo e que ficarei online mais tarde, se quiser conversar.
         - Conversar ou tirar a roupa?_ quando dei por mim já havia deixado escapar e com um tom quase agressivo e ressentido, mas isso não fez diferença já que não surtiu nenhum efeito, além de provocar aquele riso curto e quase seco que penetrou a fundo a memória, me fazendo imaginar a curva dos lábios, os dentes brancos e as covinhas na bochecha, estremeci e abri os olhos suprimindo um suspiro e pensando “Você deveria ficar brava e não encantada sua idiota”.
         - Conversar, mas se quiser tirar a roupa não farei nenhuma objeção, será um prazer, não tenha dúvida disso._disse ele, novamente indiferente a qualquer sinal que eu tenha dado de ressentimento, me deixando desarmada e com um sorriso involuntário no canto dos lábios, realmente não seria uma má ideia, e mesmo não tendo dito aquilo como proposta, no fim foi com o que pareceu. “Idiota” “É ele que me provoca” as ideias gritavam dentro da minha cabeça que latejava e girava devagar.
            - Eu já contei que você não presta?_disse, por fim cedendo completamente aquele jogo.
            - Foi você quem falou, eu não disse nada e bem, eu sei que você gosta, confesse!
            - Devo gostar mesmo pra fazer o que fiz.
            - O que você fez? Não me diga que finalmente resolveu escrever um livro sobre mim?
            - Ahh meu Deus, como você adivinhou? Claro, as pessoas realmente precisam conhecer você e toda essa presunção. Desculpe, Vinc, mas, o mundo não gira em torno de você, sinto muito._disse toda verdade com o meu tom mais zombeteiro e ele sorriu novamente, desta vez de uma forma mais solta e aparentemente mais sincera.
            - O que foi que você fez branca?_usou de um tom quase carinhoso. “Droga” pensei.
            - Eu comprei passagens._levei a mão livre e massageei as têmporas, numa tentativa estúpida de aliviar a dor de cabeça.
            - Pra onde?_ fez-se de desentendido, mas eu notei quase um tom de empolgação na voz dele, ou isso ou era a minha imaginação me pregando mais uma peça. 
            - Não consegue mesmo imaginar?
Ele riu e respondeu:
            - Não.
            - Vai mesmo ficar online mais tarde?
            - Vou.
            - Mais tarde a gente conversa. Agora estou morrendo de dor de cabeça e definitivamente não estou no meu juízo normal.
            - Eu gosto quando você perde o juízo, mas vá descansar, quero saber pra onde a moçinha resolveu viajar.
            - Não se faça de bobo.
            - Ué, não estou!_protelou de forma nada convincente.
            - Tá bom, não está.
            - Vou desligar então.
            - Ok. Beijos e até mais tarde.
            - Certo, te espero pra gente conversar, tirar a roupa, fazer o que você quiser, ta legal?
            - Ótimo, Vinc, beijos até mais.
            - Até.     

           


24 agosto 2013

Capítulo 26

ESCRITO POR: MAYRA BORGES


Fogo costuma deixar sinais de fumaça, talvez tenha definitivamente apagado. Esse pensamento atravessou a minha mente enquanto eu olhava para a tela do computador sem esperanças, balancei a cabeça negativamente, dei de ombros e voltei a me deitar. Há quantos dias ele não aparecia? Duas semanas? Havia perdido as contas e havia um sabor ácido de ressentimento em mim.
Instintivamente olhei para a gaveta onde guardara as passagens, não era minha ideia desistir daquela viagem, essa hipótese em momento algum passara pela minha cabeça desde que as comprara. Bom a verdade era que eu nunca quis conhecer Recife estava indo por conta de alguém que muito provavelmente nem saberia da minha estadia na cidade, pensar nisso apurou a acidez em minha boca. Volta e meia o rosto dele me vinha à mente e então as lembranças da nossa última conversa me invadiam, aquele corpo despido e todo o prazer proporcionado à distância, delírio, pra nunca mais.
Bastaram às recordações pra eu despertar. E foi então que a luxúria avançou ao ódio e se fundiu a ele, dois sentimentos fortes demais e completamente entrelaçados. O ódio em meio ao desejo e o desejo em meio ao ódio. O odiava por estar longe, por sempre ter que ir embora e pela mania insuportável de desaparecer, odiava sentir-me como um brinquedo abandonado no canto do armário porque havia outro brinquedo melhor. Odiava sentir-me irrevogavelmente frenética, entregue e sem dono... O odiava ainda mais por ser a causa disso e ao mesmo tempo desejava-o por tudo que me provocava, porque era lindo, esperto e por ser tão cafajeste. Aos poucos ia me transformando em paradoxo, sabia que estava errada, ou será que não estava? Balancei a cabeça de novo como se os pensamentos fossem moscas zumbindo no meu ouvido e aquele gesto pudesse afastá-las, não pode.
Em meio a pensamentos perdidos e embaralhados revertia o ódio a meu favor ou contra mim, odiava meus gestos tolos de entrega, minhas palavras tolas de encanto e meus desejos todos, armadilhas. Não deveria ter sido tão complacente, tão confessa e tão estúpida. Parte de mim queria negar o inegável enquanto outra parte queria apenas estar vulnerável, nesse mar enevoado, violento e incompreensível que é o ser mulher.
Ali deitada em minha cama comecei a alimentar uma raiva intempestiva, e o rosto dele me vinha a mente com aquela expressão propositalmente despreocupada, tudo nele era tão encantador que soava extremamente falso como se tudo aquilo fosse premeditado e estudado pra surtir exatamente aquele efeito irracional e irrefreável no qual o ter consciência não era o bastante pra fugir. Então fui tomada por uma necessidade urgente de meter-lhe a mão no meio da cara só para desmanchar aquele ar de cínico, vontade de esmurrar, arranhar, bater com todas as minhas forças e esperar que reagisse, mas acontece que em meio a esse ataque violento, forjado; havia a minha rendição. E o tremor que agitava meu corpo já não era puro ódio, mas sim uma amalgama de desejo pueril e a minha vontade era a de ser dominada. Queria sentir aquelas mãos segurando meu rosto, queria estar sem saída, contra a parede, queria que ele calasse meus gritos com um beijo indecente. Ansiava pelas mãos nos meus pulsos e o peso de seu corpo sobre o meu, queria a falta de ar e de forças, ao mesmo tempo em que precisava xingá-lo com as palavras mais baixas do meu vocabulário. E cuspir na cara dele o quanto era ordinário, cafajeste e cínico e confessar a minha parcele de culpa e todo o cinismo compartilhado.
Eu era dele, mas ele não era meu, então se acontecesse, não haveria segunda vez, depois do gozo anunciado e de algumas horas a mais sairia pela porta intitulando aquela como primeira e última vez, sem direito a despedida. Os pensamentos atropelavam-se em minha mente formando pilhas de coisas sem nexo.
            E então novamente as lembranças me agitaram os sentidos, havia urgência por prazer, e que se danasse todo o resto, naquela mistura homogênea de luxúria e ódio eu resolvi já não pensar e me dei a mim mesma em meio a imaginações e lembranças. Havia um gozo sem pudor, havia os dentes na minha própria pele e acentuados arranhões na carne crua, me fiz reflexo do descontrole. Descontei em mim a frustração da ausência e o sentido inexistente nas linhas tortas do destino. Então me derramei sozinha, noite adentro, naufraguei no meu mar de ilusões em preto e branco, suspendendo o peso das mãos no limiar da dor. Solidão completa, prazer pela metade. O riso forçado acompanhou o gozo insatisfeito; farsa que aumentou a sensação de solidão e estupidez dando espaço pra sinceridade daqueles braços em volta dos joelhos e das duas lágrimas sentidas.
            - Você não é a mulher que pensa ser, nem adianta tentar._disse a mim mesma em voz alta.
Levantei-me da cama um tanto zonza, tropecei no tapete e bati com o joelho na mesinha de cabeceira.
            - Merda!

Fui até a cozinha e abri a geladeira à procura de algo que pudesse beber, havia uma garrafa de cidra esquecida do Natal passado, soltei um riso seco e sem graça. Olhei o relógio já passava de uma da manhã e era a única bebida em casa, tirei a rolha e bebi no gargalo, provavelmente tudo que eu teria era uma dor de cabeça no dia seguinte e mais nada, se tivesse sorte talvez dormisse um pouco. 

20 agosto 2013

Capítulo 25


ESCRITO POR: MAYRA BORGES


Um filme banal, com roteiro ruim e sem nenhum diretor, com uma protagonista inábil e sem talento algum para atuação, intitulado: minha vida. Mas que, no entanto garante alguma espécie de reviravolta em qualquer momento, e se por algum motivo você continua aqui é porque acredita nisso, eu também acredito e sinceramente não espero decepcionar.

Quis ao máximo evitar protagonizar mais uma cena clichê, mas não pude esquivar-me da vontade de perambular pelas ruas sem destino, o asfalto estava gasto e úmido, e entoava alguma poesia que eu não conseguia captar. Por sua vez o céu tinha ralas camadas de nuvens revelando e ocultando pedaços de um azul pálido.  No primeiro momento estava sem rumo e os pensamentos embaralhavam-se e perdiam-se antes de se tornarem inteligíveis e eu apenas observava o tempo que parecia parado naquela manhã já por completo desperta. Foi então que distraída como estava acabei por esbarrar em um homem na rua, foi algo rápido e confuso e por um momento senti o estômago afundar, em meio à confusão notei cabelos quase na altura dos ombros, a pele branca, os pequenos olhos castanhos:
- Vincent? _ o nome escapuliu da minha boca automaticamente, mas tão logo pronunciado percebi o engano, óbvio. Havia uma mancha disforme no rosto do rapaz e os olhos nem eram tão pequenos se olhasse bem.  
- Desculpe!_ apressei-me em dizer com um sorriso amarelo, o moço assentiu num maneio de cabeça e retomou seu caminho.

         Quantos destinos existem por ai? Quantos deles podem cruzar com o nosso? É impossível saber, mas naquele momento o destino me ofereceu uma rota alternativa foi como um clik e de repente a imagem a minha frente entrou em foco. O fato é que, não há nada incomum em esbarrar com alguém no meio da rua, mas aquele encontrão e a memória que ele despertou em mim não eram um simples acaso e mesmo que fosse... Voe Miriam! Não, não é metáfora, voe, pegue um avião, vá atrás do que você quer. Vincent.

         Mudei meu rumo, desci apressadamente a rua até chegar ao ponto de ônibus, estava finalmente obstinada e sentia a vitalidade daquela recente decisão percorrendo meu corpo. Parei em frente à agência de viagens e antes que eu pudesse parar pra analisar o tamanho da minha profundidade já estava sentada conversando com a moça sobre datas e preços de passagens, quando dei por mim já havia passado o cartão de crédito sem tempo para reflexões e arrependimentos. 

CONTINUA...